Apropriação e Processamento da Leitura e da Escrita
A educação pré-escolar, ainda que de
frequência facultativa, é o primeiro degrau de um longo caminho educativo com
um peso decisivo no sucesso escolar e social dos jovens, e o jardim de
infância configura-se como um espaço de tempo privilegiado para aprendizagens estruturantes e decisivas no desenvolvimento da
criança. Nesse processo são inquestionáveis o papel e a importância da
linguagem como capacidade e veículo de comunicação e de acesso ao
conhecimento sobre o mundo e sobre a vida pessoal e social.
A linguagem
escrita como uma das múltiplas linguagens da criança, procuramos enfatizar a
importância de tratar esse objeto de conhecimento no contexto das demais
linguagens.
Além disso,
explicitamos os conceitos de alfabetização e letramento, que são a chave para
compreender as questões que serão desenvolvidas.
Para entrar
efetivamente nas questões relativas ao aprendizado da linguagem escrita pela
criança.
Várias dúvidas
devem estar rondando sua mente: “Qual o melhor método para esse aprendizado?”,
“Como a linguagem oral interfere na aprendizagem da linguagem escrita?”, “O que
vem antes, a leitura ou a escrita?”, “Que aspectos envolvem esse aprendizado?”,
“Por onde começar?” etc.
Convido você a
pensar no seu próprio processo de aquisição da linguagem escrita. Você se
lembra de como foi alfabetizado (a)? Quando? Por quem? De que maneira?
Lembra-se do que você já sabia quando ingressou no ensino fundamental? Que
papel desempenhou sua família? Seus amigos? Sua passagem pela educação
infantil? Quando você tomou consciência de que o mundo em que vivia poderia ser
escrito ou lido? Que papel teve a cartilha? Que conhecimentos foram necessários
para você aprender a ler e escrever? Em que momento você considera que estava
realmente alfabetizado (a)? Quando as crianças chegam à escola, é fundamental
que você saiba o que elas já conhecem e como aprenderam. Também é importante
investigar o que querem aprender acerca da linguagem escrita e para que querem
aprender a ler e a escrever. Você se surpreenderá com as respostas e, a partir
delas, buscará caminhos insuspeitos para trabalhar esses conhecimentos.
A
linguagem oral no processo de alfabetização
A linguagem
oral (fala, escuta e compreensão) permeia quase todas as interações
estabelecidas pelas crianças em suas práticas sociais. É assim que meninos e
meninas se apropriam da cultura escolar, desde o ingresso na instituição.
É também por
meio da fala que as crianças adentram na escola, levando consigo as marcas de
sua classe social, de sua origem e identidade cultural, constituída por
conhecimentos, crenças e valores.
É importante
lembrar que a população brasileira fala de diferentes formas, em função dos
espaços geográficos que ocupa, da classe social, da idade e do gênero a que
pertence. Essas diferenças sintáticas, semânticas, fonéticas, morfológicas e
fonológicas é que fazem a riqueza de nossa língua.
Sendo assim
todas essas variedades são legítimas e corretas, já que não temos uma gramática
normativa da linguagem oral como a que existe para a linguagem escrita.

Para que a
escola possa efetivamente contribuir para a continuidade
do processo de
aprendizagem das crianças e, ao mesmo tempo,
considerar
alguns paradigmas da educação brasileira, como a inclusão e o
reconhecimento
à diversidade, é necessário livrar-se de preconceitos,
relativos à
fala das camadas populares, e acolher as crianças com toda a
bagagem
cultural que trazem. Consequentemente, deve-se romper com
alguns mitos,
que obscurecem seu olhar sobre o aluno – dentre eles, o de
que existe
apenas uma forma correta de falar –, e
com a interpretação
equivocada de
que a escrita é a reprodução da fala. Esse entendimento
leva alguns
professores a querer que seus alunos reproduzam na escrita a
forma como
falam, sem considerar que se tratam de duas modalidades
distintas de
linguagem e que, portanto, envolvem aspectos diversos.
Saber falar bem
não significa saber escrever bem. Assim,
existiriam
muitos modos de
falar, que a escola tem de respeitar, e
um único modo
de escrever,
que ela deve ensinar? Não é bem isso, ou melhor, não é
apenas isso; a
escola deverá também ensinar a linguagem oral.
O
aprendizado da linguagem oral na escola
Aprendemos uma
língua ao ouvir, falar, ler e escrever. Portanto, é
muito
importante que essas ações sejam trabalhadas na escola, tendo em
vista suas
inúmeras possibilidades, e tendo sempre como norte a
participação,
cada vez maior, do sujeito na vida cidadã. É importante
lembrar que o
aprendizado da linguagem oral envolve não apenas a fala,
mas também o
entendimento, ou seja, ouvir com compreensão. E isso
também se
aprende na escola a partir da ação atenta e efetiva do
professor, que
deve buscar na prática pedagógica as situações em que é
preciso ouvir,
compreender e interpretar.
Além disso,
existem algumas situações comunicativas que devem ser
propostas pelo
professor, pois ajudam a criança a estruturar seu
pensamento e
adequar a linguagem oral ao contexto e ao interlocutor. O
uso mais formal
da fala tem que ser trabalhado em
situações reais, em
que esse tipo
de discurso faça sentido. Por isso, desde muito cedo, é
importante que
o aluno participe de situações em que necessite planejar a
sua fala (tais
como entrevistas, seminários, debates etc.), vendo-se como
produtor de
textos orais.
Existem muitas
coisas a se aprender na escola no tocante à
linguagem oral.
Uma delas é a forma de falar em cada contexto,
considerando as
características da comunicação, ou seja, adequar a fala
às diferentes
situações comunicativas. Nesse sentido, é fundamental a
coordenação de
o que falar e de como falar tendo em vista o interlocutor,
e também quem
fala e por que fala uma coisa ou outra.
Assim, mesmo
respeitando as
variações lingüísticas do aluno, a escola vai contribuir para
que ele aprenda
a falar adequadamente, atingindo o objetivo desejado e
mostrando que
cada instância exige um tipo de fala. A própria condição de
aluno determina
alguns usos da linguagem oral inerentes à cultura
escolar.
É
responsabilidade da escola, no papel de mediadora cultural,
enriquecer o repertório
de textos orais dos alunos. Para isso, deve
possibilitar-lhes
o acesso a textos que constituem
patrimônio cultural da
humanidade
(como histórias, lendas, mitos, fábulas, poesias, parlendas,
trava-línguas,
piadas, adivinhas, entre outros), possibilitando a vivência
das funções
literária e expressiva da linguagem.
Vamos
exemplificar essa afirmação a partir de
duas obras, recém lançadas, pela editora Scipione: O Cravo e a Rosa e outros contos e
Quadrinhas
brasileiras.
Para explorar
esses dois livros é muito importante instigar as crianças
a conhecerem a
biografia do grande folclorista brasileiro Sílvio Romero.
Fale a respeito
de sua vida e obra, destacando a forma como ele construiu
conhecimentos
sobre as tradições brasileiras por meio de histórias,
cantigas,
quadrinhas etc.

As crianças se
identificam muito com esses tipos de textos, e muitos
já são
conhecidos por elas desde muito cedo, pois são passados de pai
para filho e
incorporados nas brincadeiras. Ao conversar sobre essas
produções, você
pode recuperar as cantigas e as quadrinhas conhecidas e
socializar as
brincadeiras folclóricas da comunidade em que vivem. Leia as
quadrinhas com
as crianças, cante as cantigas de roda, peça-lhes que
façam desenhos
a partir delas.
Além disso, é
possível trabalhar com as belíssimas ilustrações de
Rosinha Campos,
que, por si só, já instigam o aluno para o exercício da
oralidade, ou
seja, cada página ilustrada pode ser objeto de muitas
conversas que,
com sua intervenção, professor(a), possibilitam a
produção de
textos orais muito significativos para as crianças.
Esses dois
tipos de textos orais podem também ser
trabalhados no
processo de alfabetização,
com o objetivo de desenvolver a consciência
fonológica das
crianças por meio do reconhecimento de rimas e
aliterações.
O
aprendizado da escrita
Os meninos e as
meninas, sobretudo os que vivem nos centros
urbanos,
encontram-se imersos num mundo povoado de escritos e
participam de
práticas sociais de leitura e escrita.
Dessa maneira,
convivem em um
contexto de letramento. Mesmo os que moram na zona
rural já foram
tocados de alguma forma pelos meios de comunicação e,
em geral, já
presenciaram muitos atos de leitura e escrita. Assim, essas
crianças são
desafiadas a interagir com diferentes tipos de textos, o que
os possibilita
desde cedo a compreensão das funções da escrita, dando
início ao
processo de aprendizagem desse conhecimento. Só que eles
aprendem
diferentes coisas e por caminhos diversos.
Você pode estar
se peguntando: “Mas como farei para
ensinar o
grupo de trinta
crianças com as quais trabalho?”, “Qual
o melhor
método?”.
Ao relembrar
seu próprio processo de alfabetização, certamente,
ocorreu-lhe o
método pelo qual você aprendeu, cartilha, livro etc., ou
mesmo, a
lembrança de sua primeira professora. Boas e/ou más
recordações
devem ter povoado suas reminiscências.
Até muito
recentemente, acreditava-se que para a criança aprender a
ler e a
escrever era preciso ter a maturidade necessária e antes
desenvolver a
coordenação motora fina, as percepções visual, auditiva,
olfativa e
tátil, a linguagem oral e a coordenação vasomotora
O conjunto dessas habilidades, antes
consideradas indispensáveis ao
aprendizado da
leitura e da escrita, era constituído de atividades
repetitivas,
denominadas preparatórias. Esse trabalho era, em geral,
desenvolvido na
educação infantil ou nos primeiros meses da escolaridade
formal, e era
costume chamá-lo de período preparatório ou de período de
prontidão.
Era comum o
trabalho de alfabetização propriamente dito ter início
com a cópia do
desenho das vogais, suas junções formando palavras
monossilábicas,
o aparecimento das consoantes, a junção
destas às
vogais formando
sílabas e palavras. Finalmente, eram trabalhadas frases
e pequenos
textos, sempre com o predomínio da família silábica que se
queria
enfatizar.

Havia outros
métodos para ensinar a ler e a escrever, mas as
concepções
predominantes apontavam para a leitura e
a escrita como
objeto de
conhecimento controlado pela escola, que deveria ser
trabalhado em
“doses homeopáticas”. Os métodos de alfabetização,
sintéticos ou
analíticos, partindo de fonemas, letras ou sílabas, de
palavras ou
frases, tinham sempre o pressuposto de que todas as crianças
deveriam
aprender as mesmas coisas num mesmo tempo, num mesmo
ritmo e da
mesma maneira.
Embora em
algumas escolas do nosso país ainda persistam essas
crenças, a
partir da década de 1980, houve, no terreno da alfabetização,
várias
conquistas que nos ajudam a compreender
a complexidade do
processo de
aprendizagem da leitura e da escrita.
Nos próximos
artigos serão aprofundadas algumas dessas questões,
em particular
as pesquisas em Psicolinguística realizadas por Emília
Ferreiro e seus
colaboradores; que, com base nos estudos de Jean
Piaget,
descrevem a trajetória da criança desde os primeiros contatos com
a linguagem
escrita até a descoberta do sistema alfabético. Esses estudos,
ao contrário
dos anteriores, que se preocupavam com a melhor maneira
de ensinar, têm
o foco na criança e nas suas formas de aprender.
Outra conquista
dos anos 1980 foi a ampliação do
conceito de
alfabetização a
partir do entendimento do conceito de letramento e de sua
incorporação
definitiva nas discussões sobre o aprendizado da linguagem
escrita.
Também foi
nesse período que os estudos de linguística começaram a
contribuir
efetivamente para a compreensão do ensino da linguagem
escrita,
notadamente da alfabetização. Da mesma maneira a
sociolingüística,
as neurociências e a antropologia vêm
produzindo
conhecimentos
que nos ajudam na compreensão desse processo.
O conjunto
desses estudos mostra que a linguagem escrita é um
objeto de
conhecimento complexo e dinâmico, cuja aprendizagem envolve
a construção e
a reconstrução de vários aspectos: funcionais, textuais,
gráficos e os
relativos ao sistema alfabético de representação.
Fonte de pesquisa:
Alfabetização
e Letramento
www.scipione.com.br/letramento
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